Colombina desce de seu apartamento: uma tarde nublada.
Resolve dar uma passada na padaria para o "pingado" como de costume. Pingado, Média, Café com Leite.
Ela senta-se ao balcão e não nas mesinhas de fora onde ficam as "mulheres de família".Põe a piteira preta em seu cigarro, e o acende...nem ligando para algumas caras feias que vê por ali.
De repente , para o olhar em duas amigas que estão conversando.Dondocas da elite de quem Colombina já roubou os maridos por algumas noites em outros carnavais.
Elas estão a falar de suas vidinhas mediocres como "senhorinhas do lar", de seus devaneios compulsivos por objetos de valor.
De repente, eis que com um certo ar de "orgulho",uma delas vira-se para a amiga e diz: "Ai ...eis que estou a viver endividada.Meu marido me deu um cartão.Pago juros altíssimos!E ainda uso o dele escondido sabe? Quem nunca gastou horrores e pagou no débito para que nossos homens não desconfiem!!! Hahahahaha...ai ai... Sem dúvidas, não sou ninguém."
Colombina dá um pulo do balcão de ímpeto...olha para elas, desejando que elas a vejam.E eis que a observam...ela então dá um risinho sacana de lado da boca e engole o resto de pingado com uma classe inigualável á nenhuma Dama de etiqueta.E se volve ao balcão para conversar com o atendente ...ri-se.
Talvez, você não entenda a atitude de Colombina a princípio.
Aquelas mulheres, de fato, não são Ninguém... elas são é Todo Mundo!
Todo Mundo se individa... Todo Mundo faz compras compulsivas... Todo Mundo,nada de diferente ... é só Todo Mundo e Todo Mundo somente.
TodoMundo é IGUAL a Todo Mundo.
Ninguém é diferente. Ninguém faz a diferença.Ninguém vive em seu mundo recluso e misantropo...Ninguém raciocina.Ninguém é lembrado.Ninguém é ativo,por si e pelo próximo.
Colombina abriu sua carteirinha com detalhes de pedrinha de guardar moedas; aquelas com fecho francês de bolinhas, tirou as moedinhas que lhe pagaram o pingado...
passou sorridente e faceira.Fez uma reverencia ás mulheres que a mediram de cima a baixo...e se juntaram um pouco mais quando Colombina se afastou para falar mal dela.
Colombina se riu, já que por ser uma mulher emancipada ,numa sociedade tão machista, ela , que não é "Senhora do lar" mas é dona de (sua própria) casa, que não é mulher de um homem só , porque não se deixou prender por um padrão, por que não quer ter de lavar as meias de quem Odeia SEM Amar, porque entende o processo como dar-se a quem de direito ou nada;Colombina, mais uma "Joana-Parva-Zé-Ninguém" na sociedade , entendeu o seu papel.
E pela primeira vez na vida, agradeceu...e desejou com força interior
apenas ser NINGUÉM ( Clique para ouvir - Filosofia- (Noel Rosa) Intrp.Chico Buarque)
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