Colombina senta-se em sua cama com uma das pernas dobradas sobre a mesma e um dos pés tocando suavemente com a ponta o chão , vestindo um roupão típico de banho, os cabelos molhados melecados de creme enrolados em uma toalha branca.
Sábado, seu Shabat, dia de cuidar só de si.
A cidade se movimenta lá embaixo de alguma forma numa tarde que quer ir parando aos poucos com suas orgias para culminar num seguinte dia em família em uma "Santa Missa de Domingo".
Tsc,tsc,tsc...
3 badaladas do sino da igreja ao lado dão a Colombina a impressão de que ele está dentro de seu quarto...
Olha pra janela,repara mais na cortina balançando com um finzinho de brisa....volta para seu mundinho.
Agora encosta as costas sob a parede atrás da cama e
de uma caixa retangular vai tirando suas quinquilharias: lixa, tesourinha ,trim,algodão , removedor ,hidratante ,espátula,pedra pomes...esmalte: 'Sangue','Vibrante', 'Chic','Apaixonado','Chocante','Lúcifer','Satã','Puta','Biscate','Bandido','Assassino','Tomate Maldito':Vermelho '666'.
'Hã',balança a cabeça... um sorrisinho seguido de pulinho pelas 'tantas bobeiras' que passam pela cabeça de Colombina ...
Um pote de água morna , amolecedor em cada uma das cutículas e atravessa-se os dedos n'água.
Fita Colombina do pulso até o anel , suas veias saltadas que lhe indicam o caminho para:
Mãos...
que seria de mim sem elas...
Tocou Piano-Forte, violino,clarineta,oboé,flauta doce,cravo,violão,órgão,cello,flauta transversal, traversso...desenhou, escreveu...
Que seria de minha Dança Oriental,Gran Getês,Flamencos,Katakalis Indianos,e tantas outras sem as mesmas...
Cantaram,Falaram essas minhas Mãos!
Foram as primeiras a serem chamadas para a condução de todo um corpo em Bailes , tão marcantes Salões de Gala.
Os dedos!
Cada um, uma função:
O dedão que tem sua sola mordida entre os dentes quando se esta pensando muito,ansiosa,esperando e que as vezes,numa titubeada, ainda faz perder toda pompa, classe e circunstância para se enfiar no nariz para a eventual "chek-up", "limpeza do salão".
O indicador que aponta a cara dos canalhas, infelizes que me prometeram "mundos e fundos"e depois simplesmente dizem "Adeus".
O dedo médio que depois dessa briga toda se mostra impreterivelmente ereto e não se deixando abater, mostra-se como pavão propondo um acasalamento de esturpo; ponto finalizador de um ódio sem fala.
O dedo anelar...ah efêmero anelar... que espera incansavelmente... um dia receber um belo chuveiro de brilhantes numa base de ouro branco pelo direito de sua eternidade.
E o mindinho.Levantado lentamente após uma finalização na última tecla do piano; um ciclo de canções de Schubert acompanhando pela inclinação do corpo, a mira do olho felino fisgando com ar de "finito' toda a platéia como quem acabara de fazer uma tacada certeira em uma mesa de bilhar.
Eles também trabalham em conjunto...
Ah... o que seria de mim, pobre e desamparada se não tivesse as mãos que seguram o copo de Whisky...
E do alimento de minh'alma , o cigarrete , gentilmente ofertado pelo indicador e médio á minha boca e pulmões .
O anelar e o mindinho unidos, no alto da calada da noite gritante e festeira, onde já se perdeu o si sem dó, junto a um sorriso e uma piscadela cambaleante coroada de cíclios postiços mirando ao barman o quanto de dose da uma branquinha 'marvada' mineira.
Mãos: 5 dedos,5 funções...cada um com sua unha,cada uma delas com formato diferente.
Minhas defesas naturais, minhas armas de prazer.
Talvez por isso a escolha de uma cor tão intensa...
Mãos,
Tenho-as desde antes de nascer; Percebi seu gosto e seus movimentos antes da fala;
O livro "A Vida do Bebê" sob a estante diz que é o primeiro membro que percebemos ao nascer.
Apoei-as para aprender a andar e nunca de fato as percebi.
Odiaram num tabefe torpe,
Amaram acariciando ternamente.
Hoje, quem sabe não é bom que se pare,
só para entrelaça-las para agradecer.
E apertando-as uma contra a outra,com força pedir
que nunca parem,
"Só"? Creio que,aqui, nada.
Minha história,
Minhas Vida,
Minhas Mãos (Clique para ouvir).
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